Tocantins está entre as regiões que precisam de maior monitoramento da qualidade da água, aponta Embrapa
Pesquisa identifica riscos de poluição associados à atividade agropecuária no Matopiba e alerta que mudanças climáticas podem agravar o transporte de fertilizantes e sedimentos para rios e córregos
O Tocantins está entre os estados brasileiros que integram regiões prioritárias para o monitoramento da qualidade da água devido aos riscos de poluição associados à atividade agropecuária. A informação consta em um estudo da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), divulgado nesta terça-feira (13), que identificou áreas mais vulneráveis à chegada de fertilizantes, sedimentos e outros resíduos aos recursos hídricos. O levantamento também aponta que as mudanças climáticas podem intensificar esses riscos.
A pesquisa destaca a região do Matopiba, formada por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, como uma das áreas que exigem maior atenção. O território é uma das principais fronteiras agrícolas do Brasil e concentra atividades de produção de grãos e pecuária.
Além do Matopiba, o levantamento identificou municípios prioritários em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás, com ocorrências pontuais em São Paulo e no Paraná.
O estudo, conduzido pela pesquisadora Rachel Prado e desenvolvido por uma equipe da Embrapa, analisou indicadores relacionados ao uso da terra, à atividade agropecuária e às condições ambientais que podem favorecer a chegada de poluentes aos corpos d’água.
Como a agropecuária pode afetar a qualidade da água?
O principal problema analisado pelos pesquisadores é a chamada poluição difusa, que ocorre quando substâncias presentes em diferentes pontos de uma área são transportadas pela água da chuva até rios, córregos, lagos e reservatórios.
Em propriedades rurais, esse processo pode ocorrer quando o escoamento superficial carrega partículas de solo, fertilizantes e defensivos agrícolas, especialmente em locais com solo exposto, manejo inadequado ou processos erosivos.
O uso excessivo de nutrientes nas lavouras também pode contribuir para o problema. Parte do nitrogênio e do fósforo aplicado ao solo pode ser transportada pelas enxurradas ou alcançar águas subterrâneas por infiltração, dependendo das condições ambientais.
Esses processos podem comprometer a qualidade dos recursos hídricos utilizados para abastecimento humano, irrigação, dessedentação animal e outras atividades.
A pesquisa ressalta, entretanto, que o mapeamento identifica áreas com maior potencial de geração de poluição difusa e necessidade de acompanhamento. Isso não significa que todos os municípios classificados como prioritários apresentem contaminação comprovada da água.
Mudanças climáticas podem aumentar os riscos
As alterações no regime de chuvas estão entre os fatores que podem agravar a situação das regiões identificadas pelo estudo.
Precipitações intensas podem aumentar o escoamento superficial e a erosão do solo, transportando maiores quantidades de sedimentos e nutrientes para os cursos d’água.
Já os períodos prolongados de estiagem podem reduzir a disponibilidade hídrica, tornando determinadas bacias mais vulneráveis aos efeitos da presença de poluentes.
No Tocantins, onde a atividade agropecuária convive com períodos bem definidos de seca e chuva, o monitoramento dos recursos hídricos é especialmente relevante para acompanhar os efeitos das práticas de uso do solo e das condições climáticas.
Como o estudo foi realizado?
Para identificar as áreas prioritárias, os pesquisadores utilizaram bases de dados nacionais e ferramentas de Sistemas de Informação Geográfica (SIG), que permitem cruzar informações ambientais e produtivas.
Entre os indicadores analisados estão o consumo de fertilizantes, a extensão das áreas agrícolas, o tamanho dos rebanhos, a irrigação de canaviais, a disponibilidade de água e a suscetibilidade do solo à erosão.
Os municípios foram classificados em uma escala de 1 a 5, em que o nível 1 representa prioridade muito baixa de monitoramento e o nível 5 indica prioridade muito alta.
A partir dos resultados, a equipe elaborou dois mapas nacionais. O primeiro identifica municípios que precisam de maior acompanhamento das fontes de poluição difusa associadas à agropecuária. O segundo apresenta a vulnerabilidade dessas áreas às mudanças climáticas, considerando fatores relacionados à disponibilidade de água e à erosão hídrica.
O levantamento foi desenvolvido para subsidiar decisões de órgãos públicos responsáveis pela agricultura, pelo meio ambiente e pela gestão dos recursos hídricos.
Conservação do solo e vegetação nativa ajudam a proteger os rios
Entre as práticas que podem reduzir os riscos identificados estão o uso adequado de fertilizantes, a conservação do solo e a manutenção da vegetação nativa próxima aos cursos d’água.
A cobertura vegetal contribui para reduzir o escoamento superficial, proteger as margens e diminuir o transporte de sedimentos para rios e córregos.
O manejo adequado das áreas agrícolas também pode ajudar a evitar perdas de nutrientes, melhorar o aproveitamento dos insumos e reduzir os impactos da produção sobre os recursos hídricos.
Para regiões de expansão agropecuária, como o Matopiba, os resultados reforçam a necessidade de conciliar a produção agrícola com medidas de conservação ambiental e acompanhamento da qualidade da água.
O estudo, intitulado Mapeamento e priorização de municípios brasileiros quanto às fontes de poluição difusa da água advindas da agropecuária e vulnerabilidade às mudanças climáticas, foi publicado pela Embrapa em 2026 e está disponível para consulta pública.
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