Seca reduz nível do Rio Javaés e ameaça alimentação de comunidades indígenas na Ilha do Bananal
Imagens mostram bancos de areia e trechos com água abaixo dos joelhos; estiagem prolongada também levou o Governo do Tocantins a decretar situação de emergência em todo o estado
A estiagem prolongada no Tocantins tem provocado uma redução acentuada no nível do Rio Javaés, que banha a Ilha do Bananal, no sudoeste do estado. Imagens aéreas registradas nas proximidades de Formoso do Araguaia mostram extensos bancos de areia e trechos onde o volume de água está muito abaixo do habitual. A situação preocupa comunidades indígenas que dependem do rio para a pesca e outras atividades cotidianas.
Os registros foram feitos pelo servidor do Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo), Eduardo Hararuwe, morador da região da aldeia indígena Txuiri. Em um dos vídeos, ele atravessa a pé um trecho do rio onde, segundo seu relato, a profundidade normalmente seria suficiente para encobrir uma pessoa adulta. Atualmente, a água chega apenas à altura das canelas.
As imagens, divulgadas pelo g1 Tocantins nesta sexta-feira (23), mostram os efeitos da falta de chuvas sobre um dos principais cursos d’água da região da Ilha do Bananal, considerada a maior ilha fluvial do mundo.
Segundo Hararuwe, a redução do volume de água está relacionada a uma combinação de fatores climáticos e ambientais. Entre os problemas apontados estão a diminuição das chuvas, o desmatamento, a retirada de vegetação das margens dos rios, o assoreamento associado às queimadas e a captação irregular de água para irrigação e atividades agrícolas.
Embora esses fatores possam contribuir para a degradação dos recursos hídricos, a participação de cada um na atual redução do nível do Javaés depende de levantamentos técnicos específicos.
Redução de peixes preocupa comunidades indígenas
A queda no nível do rio também afeta a disponibilidade de peixes, importante fonte de alimentação para as comunidades indígenas Javaé que vivem na região.
De acordo com Cleber Javaé, supervisor estadual de brigadas do Prevfogo, os impactos da estiagem já são percebidos na rotina das famílias, especialmente na pesca e na segurança alimentar.
“A situação gera impactos negativos direto nos hábitos das comunidades locais, como a redução drástica de peixes, que são a base da alimentação das comunidades Javaé. Estamos sofrendo na prática os efeitos das mudanças climáticas, por isso é urgente a conscientização sobre o uso responsável dos recursos naturais”, afirmou ao g1 Tocantins.
A redução da disponibilidade hídrica também preocupa pela possibilidade de comprometer os ambientes aquáticos utilizados pelos peixes para alimentação, reprodução e deslocamento.
Para as populações tradicionais da Ilha do Bananal, a preservação do Rio Javaés está diretamente ligada à manutenção de práticas culturais e atividades de subsistência desenvolvidas ao longo de gerações.
Seca atingiu 95% do Tocantins em agosto
A situação do Rio Javaés ocorre em meio ao agravamento da estiagem em diferentes regiões do Tocantins. Dados do Monitor de Secas da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) apontam que aproximadamente 95% do território estadual apresentava algum grau de seca em agosto de 2026.
O levantamento também identificou aumento da área atingida pela seca moderada, que passou de 33,57% em julho para 57,44% em agosto, uma elevação de 23,87 pontos percentuais.
Diante desse cenário, o Governo do Tocantins publicou, na terça-feira (20), o Decreto nº 7.251, que declarou situação de emergência em todo o território estadual pelo período de 180 dias.
A medida considera os impactos da estiagem sobre o abastecimento de água, as atividades agropecuárias e os riscos de queimadas e incêndios florestais.
O decreto prevê assistência humanitária às famílias atingidas, apoio aos municípios, monitoramento das condições ambientais e medidas voltadas aos produtores rurais que sofreram prejuízos.
Os levantamentos realizados pelos órgãos estaduais também poderão subsidiar pedidos de apoio financeiro, prorrogação de obrigações e renegociação de dívidas, desde que observados os critérios legais.
Crise hídrica também afeta abastecimento em municípios
Os efeitos da estiagem não se restringem à Ilha do Bananal. Em Paraíso do Tocantins, na região central do estado, a redução do volume de água no Rio do Coco e o esgotamento do reservatório da Barragem do Coco levaram a prefeitura a decretar situação de emergência.
Segundo informações da administração municipal apresentadas no decreto, o reservatório chegou a operar em volume morto, comprometendo a disponibilidade de água para abastecimento.
A crise provocou a adoção de rodízio no fornecimento, impactos sobre o comércio e alterações nas atividades de sete escolas municipais, que tiveram aulas suspensas ou reduzidas.
O Governo do Tocantins informou que o Corpo de Bombeiros Militar, por meio da Defesa Civil, ficará responsável pela coordenação das ações de resposta à estiagem, incluindo o abastecimento emergencial de água e a assistência às localidades afetadas.
A Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Semarh) continuará acompanhando as condições meteorológicas e hidrológicas, enquanto os órgãos ligados à agropecuária deverão identificar os prejuízos sofridos pelos produtores rurais.
Mesmo com o retorno gradual das chuvas em algumas regiões, o governo alerta que a recuperação dos rios e reservatórios não ocorre necessariamente de forma imediata.
No Rio Javaés, a exposição de bancos de areia e a redução das áreas com água evidenciam a gravidade da estiagem para as comunidades que dependem diretamente dos recursos naturais da Ilha do Bananal.
Com informações do g1 Tocantins e dados do Governo do Tocantins e da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA).
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