Violência sexual na internet atinge 1 em cada 5 adolescentes no Brasil


O dado alarmante é do relatório Disrupting Harm in Brazil: Enfrentando a violência sexual contra crianças facilitada pela tecnologia, lançado nesta quarta-feira (4) pelo Fundo das Nações Unidas pela Infância (Unicef), em parceria com a organização internacional ECPAT e a Interpol, e financiado pela Safe Online.
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Em 66% dos relatos, a violência ocorreu apenas em meios digitais, principalmente via redes sociais, aplicativos de mensagens ou plataformas de jogos online. O Instagram e o WhatsApp aparecem como as ferramentas mais utilizadas pelos abusadores para abordar as vítimas. A especialista em Proteção Contra as Violências do Unicef no Brasil, Luiza Teixeira, explicou o percurso mais comum desses casos.
“Muitas vezes, agressores buscam as vítimas em plataformas que permitem perfis abertos ou públicos. Depois de fazer contato, criar conexão com a vítima e estabelecer uma relação de confiança."
Depois de conseguir a relação de confiança, os agressores acabam migrando para plataformas de conversa fechadas, onde conseguem ter mais segurança para realizar o abuso ou exploração.”
A violência mais recorrente, relatada por 14% dos entrevistados, foi a exposição a conteúdo sexual não solicitado. De acordo com o relatório, essa é uma estratégia usada pelos abusadores para gradualmente habituar a vítima a conteúdo sexual, e facilitar o escalonamento dos abusos. Além disso:
- 9% dos adolescentes receberam pedidos para compartilhar imagens de suas partes íntimas.
- 5% receberam ofertas de dinheiro ou presentes em troca de imagens íntimas
- 4% sofreram ameaças de divulgação de conteúdos íntimo
- 4% receberam propostas de conversas de cunho sexual
- 3% tiveram imagens íntimas compartilhadas sem consentimento
- 3% receberam ofertas de dinheiro ou presentes em troca de encontros sexuais
- 3% tiveram imagens manipuladas com uso de inteligência artificial para a criação de conteúdo sexual falso
- 2% foram ameaçados ou chantageados para realizar atos sexuais
A pesquisa também identificou que em quase metade dos casos (49%), a violência foi cometida por alguém conhecido da vítima, principalmente amigos, membros da família e namorados ou pretendentes. Considerando apenas esses casos, 52% das vítimas receberam o primeiro contato do agressor por meio online, mas 27% foram abordadas antes na escola e 11% em suas próprias casas.
O levantamento também mostra que um terço dos adolescentes que sofreram alguma violência não contaram sobre o ocorrido para ninguém, principalmente por não saberem onde buscar ajuda ou a quem poderiam recorrer. As outras principais razões apontadas para o silêncio foram os sentimentos de constrangimento e vergonha, e o receio de não serem credibilizadas, além do medo diante das ameaças feitas pelo agressor.
Para Luiza Teixeira, esses dados reforçam que o acolhimento constante é essencial nessa fase da vida.
“A gente vê aí a sensação de que se ela contar, ninguém vai acreditar, ninguém vai dar importância. E estamos falando de pessoas em condição peculiar de desenvolvimento, que quando deparadas com esse tipo de violência sofrem um impacto muito profundo.”
A falta de informação também aparece nos relatos: 15% das vítimas disseram desconhecer que essas situações configuram crime e 12% achavam que o ocorrido não foi “grave o suficiente” para ser denunciada, o que para a especialista do Unicef mostram a “naturalização” e a “banalização” da violência online.
Por outro lado, entre aqueles que contaram sobre a violência, a maior parte (24%) preferiu recorrer a um amigo e apenas 12% procurou a mãe ou outra mulher que ocupa função de cuidadora e 9% revelaram ao pai, ou algum homem em papel semelhante.
“Se as crianças sofrem esse tipo de violência e não comunicam, fica muito difícil ter uma visão real da incidência desse tipo de caso no país, buscar apoio para as vítimas e responsabilizar os agressores.
Segundo Luiza Teixeira, a prevenção e a resposta para esse tipo de violência dependem das crianças conversarem, contarem, e das famílias também acolherem essas vítimas”, afirmou a especialista em Proteção Contra as Violências do Unicef no Brasil
A pesquisa mostrou ainda como os adolescentes estão vulneráveis na rede. O acesso aos meios digitais é praticamente universal entre os entrevistados e 45% podem utilizar a Internet sempre, enquanto 12% são restringidos pelos pais e 14% pelos professores. Com esse uso intenso, 37% dos adolescentes acabaram sendo expostos a conteúdo sexual de forma acidental, principalmente em posts nas redes sociais e propagandas.
O relatório também elaborou orientações para os diversos entes que podem contribuir para a proteção das crianças e adolescentes.
Governo e Sistema de Justiça
- Fortalecer e investir mais no Sistema de Garantia de Direitos da Criança e do Adolescente
- Padronizar protocolos de atendimento centrados na criança e no adolescente em todo o país
- Atualizar as leis de proteção à infância e adolescência diante dos desafios das tecnologias emergentes
- Enfrentar vulnerabilidades que aumentam o risco de abuso e exploração sexual
Famílias e Cuidadores
- Oferecer informação, orientação e serviços especializados de apoio
- Promover ambientes familiares baseados no diálogo, na confiança e na escuta ativa
- Fortalecer a educação sobre consentimento, autonomia corporal e relacionamentos saudáveis
- Escolas e Profissionais do Sistema de Garantia de Direitos
- Integrar a educação sobre consentimento e proteção digital no ambiente escolar
- Capacitar profissionais para prevenir, identificar e responder a casos de abuso e exploração sexual
Setor de Tecnologia e Plataformas Digitais
- Fortalecer a cooperação entre empresas de tecnologia para prevenção e resposta à violência
- Implementar salvaguardas eficazes nas plataformas digitais
Sociedade em geral
- Ampliar a divulgação de canais de denúncia acessíveis, seguros e acolhedores
- Promover uma cultura de proteção e responsabilidade coletiva








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